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Por Entrelinhas na Copa:
"Brasil x França" tem treze letras.
Quando eu era pequeno, minha mãe teve que gradear todas as janelas do nosso antigo apartamento, na Usina (região peculiar da Tijuca, bairro localizado no Rio de Janeiro, e onde se localiza o Alzirão, assunto para outro artigo). O motivo era muito simples: eu queria voar! Pensava ser o Super-homem e andava de um lado para outro com uma capa nas costas.
Em verdade, eu possuía duas capas: uma vermelha, exatamente como a do personagem dos quadrinhos; e uma verde, que nunca entendi muito bem o porquê, mas sempre fôra minha preferida. Hoje, está tudo muito claro em minha mente: apesar do meu sobrenome francês (Laignier), até meus olhos são da cor de nossa bandeira...
Sou brasileiro com orgulho e, é claro, com muitas críticas a nosso país. Sei que muitos pensam que a Copa é o ópio do povo (o futebol, na verdade), que nos tornamos alienados, etc e tal. Prefiro acreditar que não; cada um fala de si e só eu sei de tudo que já fiz em minha vida (e faço todos os dias...). Posso garantir que, entre trabalhos voluntários, causas políticas, atitudes filantrópicas e a batalha do dia-a-dia, há um equilíbrio entre ambas na minha existência até aqui. Só não abro mão, como alguns, dos prazeres, da emoção, da intensidade, da mágica. E o futebol vem me trazendo tudo isso há anos, desde quando eu pensava ser capaz de voar...
Aliás, ainda sou capaz de voar em épocas de Copa do Mundo. Me sinto uma espécie de super-herói que (com minhas camisas amarelas e verdes) ajuda, espiritualmente, a nossa seleção em suas batalhas. E tenho que admitir que estou com medo; não da França, mas de nós mesmos. Está na hora do Brasil entrar em campo como campeão, mostrando todo o seu futebol. Já não há mais espaço para erros. A Argentina já voltou para casa e, infelizmente, não teremos a sonhada e inédita final sul-americana na Europa.
Acredito que a França fará seu melhor jogo na Copa, por três razões principais: o time deles jogou bem contra a Espanha; pode ser o último jogo profissional de Zidane; eles estarão jogando contra o Brasil. Em verdade, qualquer time se supera contra a nossa seleção, pois quem não o faz, leva para casa um enorme chocolate. O Brasil é a seleção a ser vencida e a França sabe disso.
Há uma igualdade muito grande nos confrontos anteriores entre as duas seleções. Em Copas, por exemplo, a França não leva exatamente um vantagem sobre o Brasil, já que os números são quase iguais. Só que números precisam ser analisados historicamente, contextualizados e, fazendo isso, percebemos que: Brasil e França se enfrentaram três vezes em Copas; cada seleção venceu uma única vez; houve um empate. O que desequilibraria esta estatística em favor da França seria o critério de desempate daquele jogo de 1986: A França venceu nos pênaltis, seguindo adiante na competição. Só que as vitórias de cada seleção foram pela mesma diferença de gols (três). Em 1998, a França venceu em casa e o Brasil teve problemas extra-campo que afetaram o desempenho da nossa seleção durante a partida. Em 1958, sim, o Brasil venceu e convenceu, pois a França era a favorita para vencer a Copa e tinha em campo Just Fontaine, o maior artlheiro em uma mesma edição de Copas, com 13 gols.
O Brasil não só passeou em campo, como venceu, pela única vez na história, uma Copa na Europa. Nenhum país não-europeu conseguiu repetir esta façanha novamente... Pois somos os únicos não-europeus ainda nesta competição de 2006. Temos a melhor seleção do mundo no momento. Além disso, "França perderá" tem treze letras. E, como se isso não bastasse, percebo que o Brasil é a única seleção com jogadores capazes de voar. E os Ronaldos farão isso hoje, como Super-homens que são. Já preparei a minha capa verde...
Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br
Por Entrelinhas na Copa:
O maior de todos.
Sempre tive uma certa nostalgia de um tempo em que não vivi: o dos grandes craques do passado e, particularmente, o período histórico que compreende as três primeiras Copas do Mundo conquistadas pela nossa seleção: Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Didi, Rivelino, etc. Não tive o prazer de viver essa época e assistir, ao vivo, as partidas disputadas por esses jogadores extraordinários. Vivenciei uma parte da carreira de Zico; mas, infelizmente, não o vi levantar uma Copa do Mundo.
Pensando bem, até que não posso me queixar de todo, posto que Romário fez alguns dos meus dias ficarem mais felizes, intensos e brilhantes durante o período 93/94 (e até mesmo depois disso). Com relação ao Rei do Futebol, porém, o máximo que o tempo me permitiu foi sair mais cedo do colégio para ver o jogo realizado em comemoração aos cinqüenta anos de Pelé, em 1990. Matei aula de desenho geométrico, do professor Ezequiel, para ver aquele jogo em casa, como pedia a ocasião. É claro que não foi a mesma coisa... Torcia para Pelé fazer uma jogada de gênio, lembrando-me a todo momento que aquele senhor de meio século, aposentado da função de atleta profissional havia 13 anos, estava jogando em meio a jogadores profissionais no auge da forma física.
Até que me deparei com os Meninos do Samba, ainda na fase da família Scolari, na Copa de 2002. Aquele time simplesmente venceu as sete partidas que disputou durante a Copa, tornando-se a única seleção a repetir o feito do próprio Brasil, em 1970, de vencer todos os jogos de uma Copa.
Além disso, Ronaldos são abundantes nesta seleção: o Fenômeno despontando em 1993, aos dezesseis anos de idade, ao marcar cinco gols em uma mesma partida oficial do Campeonato Brasileiro; o Gaúcho despontando em 1999, aos dezenove anos de idade, "chapelando" o tetracampeão Dunga em um "grenal" inesquecível, além de marcar um dos gols mais bonitos da história da Copa América, em sua primeira partida pela seleção brasileira principal.
Esses garotos hoje, passados alguns anos, já obtiveram, juntos, cinco títulos de melhor jogador do mundo pela FIFA: três do Fenômeno, dois do Gaúcho. Além disso, outros garotos também foram surgindo pelo mesmo caminho. Kaká, marcando dois gols em uma final pelo São Paulo; Robinho, dando títulos ao Santos. Adriano, com muita força física e uma impressionante capacidade de marcar gols em jogos decisivos.
Trata-se de uma seleção com muito futebol, muitas vitórias, muitos gols e muita alegria. O Samba tocado por eles, ainda em campo, logo após a final da Copa das Confederações de 2005, fez o mundo se curvar em sua direção. Muitas comparações foram feitas pela imprensa antes da Copa do Mundo de 2006 começar. Por exemplo, entre esta seleção e a de 70. Dei-me conta, então, de que já não preciso olhar para o passado que não vivi, pois estou tendo a oportunidade de acompanhar a história de algumas futuras lendas do esporte.
Uma delas se chama Ronaldo, o Fenômeno. E, mais do que falar sobre o jogo contra Gana, me interessa registrar aqui o que amanhã estampará as capas dos jornais do mundo inteiro: o maior de todos estava em campo. Ronaldo fez o primeiro gol do Brasil na partida (cujo placar foi 3 x 0 para a nossa seleção), tornando-se o maior goleador em Copas do Mundo. Foi seu décimo-quinto gol em quatro edições da competição, passando a frente do alemão Gerd Müller exatamente no mesmo palco em que o artilheiro alemão escreveu seu nome na história das Copas. Mais até do que isso, em sua própria casa. Cabe ressaltar, ainda, que o Fenômeno marcou seus quinze gols em apenas três Copas, pois em 1994 ele não chegou a entrar em campo pela nossa seleção.
Muitos comentaristas esportivos reclamavam a ausência de Robinho no jogo desta tarde. Machucado, o jovem craque de 22 anos não poderia pedalar e servir os companheiros na partida contra Gana. Pois não é que o Fenômeno, ao receber uma bola açucarada de Kaká, correu em direção à grande área de Gana, pedalou na frente do goleiro com sua perna direita, driblando em seguida o arqueiro ganense com a perna esquerda, para novamente tocar com a direita, de leve, deixando que a bola fosse lentamente morrer na rede adversária... Ronaldo pintou hoje, em campo, uma obra-prima para ser exposta, por anos a fio, na galeria das Copas do Mundo.
Que venham os franceses...
Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br
Por Entrelinhas na Copa:
"Hora da verdade" tem treze letras.
A partir de agora, não há mais meias palavras: quem perder um jogo na Copa do Mundo volta para casa. Aliás, assistindo a jogos das oitavas-de-final, pude comprovar que times como a Holanda voltaram mais cedo. Realmente, não é hora para brincadeiras...a não ser que estejamos falando sobre o Brasil.
Afinal de contas, o que se espera da nossa seleção agora é justamente isto: brincadeiras!!!! Ninguém mais admite, após a goleada (de virada, cabe ressaltar) contra o Japão, que o Brasil volte a jogar sem brilho. Não se trata de estabelecer placares dilatados, pois o número de gols não reflete necessariamente a qualidade do futebol jogado em uma partida. Trata-se, sim, de reafirmar o óbvio e espantar os urubus de plantão: vencer e convencer, pelo menos até a final. Digo isto, pois não se espera do Brasil menos do que a defesa do atual título mundial.
A seleção brasileira esteve nas últimas três finais de Copas do Mundo, vencendo duas. Uma, inclusive, com Parreira como técnico. Além disso, é a atual campeã mundial. Como se tudo isso não fosse suficiente, é também a atual campeã continental, tendo vencido a Copa América de 2004 com um time reserva. E é, também, a atual campeã da Copa das Confederações, realizada no ano passado na própria Alemanha. Nesta, utilizou um time híbrido, com alguns titulares e alguns reservas.
Pois vamos relembrar o que aconteceu na hora da verdade dessas competições citadas no parágrafo anterior. Para começar, lembremos da última Copa do Mundo, realizada simultaneamente em dois países, Coréia do Sul e Japão. O Brasil enfrentou a Bélgica, nas oitavas-de-final, vencendo por 2 x 0, com gols de Rivaldo e do Fenômeno. Os gols demoraram a sair, mas não houve maiores sustos. Nas quartas-de-final, o time da Inglaterra deu mais trabalho, ao sair na frente, em falha indescritível do zagueiro Lúcio. Porém, havia um Ronaldinho Gaúcho em campo, que serviu Rivaldo no primeiro gol e fez o segundo, da virada, de forma ainda mais indescritível, colocando o Brasil nas semi-finais e seu próprio nome na história das Copas. Na fase seguinte, o Brasil pegou novamente a Turquia, seleção que já fôra adversária da nossa durante a primeira fase da Copa de 2002. O gol, mais uma vez, demorou a sair, vindo do bico da chuteira do Fenômeno e colocando o Brasil em mais uma final de Copa do Mundo. Sendo que, pela primeira vez na história da competição, os dois maiores vencedores se enfrentariam: Brasil x Alemanha. Vencemos e convencemos, por 2 x 0, sendo ambos do Fenômeno. Um mata-mata sem prorrogações, com quatro vitórias para ninguém botar defeito. Naquela Copa, começavam a surgir os Meninos do Samba.
Já na Copa América de 2004, disputada no Peru, a hora da verdade consagrou alguns jogadores que hoje fazem parte de nossa seleção, como o atacante Adriano e o goleiro Júlio César. Mesmo com um time reserva, o Brasil sagrou-se campeão ao derrotar, em seqüência, México (4 x 1), Uruguai (0 x 0) e Argentina (2 x 2). Os dois últimos jogos foram decididos nos pênaltis. Também, com o time reserva...
A Copa das Confederações de 2005, realizada na Alemanha, mostrou ao mundo o poder da seleção brasileira. Com um time híbrido, no qual se firmaram os laterais Cicinho e Gilberto, o Brasil derrotou a Alemanha (3 x 2) e a Argentina (4 x 1). A final foi histórica; o Brasil atropelou seu maior rival futebolístico, no mesmo cenário onde agora busca mais um título mundial. O artilheiro Adriano mais uma vez voltou a brilhar, além de Kaká, Robinho e Ronaldinho Gaúcho.
E se me perguntarem quais são as chances de Gana no jogo de amanhã, digo de bate-pronto: as mesmas de qualquer outro time do mundo atualmente (talvez à exceção de Argentina, Alemanha, Itália e França), ou seja, ínfimas. Gana não pode simplesmente vencer o jogo; o Brasil é que pode perder para si mesmo, com sua fogueira de vaidades, além da pressão por resultados e espetáculo. O Brasil, se entrar em campo como sabemos que pode, passeia amanhã de forma alegre, ao som de samba.
Afinal, são dezoito Copas do Mundo contra apenas uma. Nossa camisa amarela pesa cinco títulos mundiais e quase duzentos gols marcados na maior competição de todo o futebol mundial. Além disso, o Fenômeno já desencantou; "Gana eliminada" tem 13 letras; e, o que é melhor: a "hora da verdade" começou e, além de também ter 13 letras, sempre foi amiga da amarelinha (principalmente nos últimos anos)...
Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br
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