De agora em diante...
As tecnologias digitais estão promovendo uma grande discussão a respeito da ética nos meios de comunicação. Quase todo dia é possível encontrar uma matéria na imprensa escrita a respeito da difusão de arquivos sonoros, textuais ou imagéticos, de forma a nos perguntarmos o que é, de fato, a "pirataria digital".
Mais do que desdobrar este tema específico, parece-me realmente importante ressaltar aqui, nestas poucas linhas, o quão indefinido é o destino da informação no mundo digital, que vem sendo chamado por nós (do campo da Comunicação Social) de ciberespaço. O fluxo informacional gerado por este espaço virtual que emerge da interconexão dos computadores em nível mundial, como bem diria o francês Pierre Lévy, reflete toda a gama de emoções e atitudes humanas largamente difundidas no que o brasileiro Muniz Sodré chama de real-histórico (o mundo como o conhecemos de há muito...).
Ou seja, tanto se pode perceber o quanto a internet continua a difundir a comunicação de massa (de um emissor para muitos receptores) e o capitalismo tardio (através de grandes cadeias de lojas on-line que nos permitem usar e abusar dos cartões de crédito, efetuando rapidamente uma compra e empurrando a longo prazo uma dívida, como diria o polonês Zygmunt Bauman), quanto podemos vislumbrar novas perspectivas políticas a partir das tecnointerações que fazem surgir comunidades virtuais e grupos de discussão eletrônica. A interação possibilitada pelas novas tecnologias digitais é do tipo difusa e indeterminada (um para um, um para muitos, muitos para muitos, muitos para um, etc).
Assim, a quantidade não só de informações, mas de possibilidades informacionais é quase irrestrita. Quanto mais os computadores aumentam sua capacidade de captação, manipulação, transmissão e armazenamento de dados, novas e mais sofisticadas formas de uso do ciberespaço se apresentam a nós, cabendo a nós mesmos decidirmos sobre a ética envolvida em seu uso. Discutir não só a respeito da "pirataria digital", mas, sobretudo, da "pedofilia digital" (e outros "ia"s bem famosos) se faz necessário, já que, mesmo sendo uma rede descentralizada, é preciso haver punição para o crime virtual (que é mais real do que pode parecer em princípio). Uma foto pornográfica com uma criança de cinco anos foi, antes de ser difundida pela rede, produzida no real-histórico; e é neste que deve ser tratada como crime. Aliás, diga-se de passagem, as novas mídias já fazem parte do real-histórico, mesmo sob os brados pós-modernos de que a nossa era seria pós-histórica.
Apoiado no pensamento do brilhante italiano Umberto Eco, finalizo este breve texto retomando de forma atualizada sua famosa distinção dicotômica dos anos sessenta do século passado: mais do que sermos "apocalípticos ou integrados" diante desse novo mundo virtual de possibilidades, devemos operar na medida humana, sem "conceitos-fetiche" (genéricos) ou análises superficiais. Em alguma medida nos valemos do ciberespaço e, portanto, dele devemos cuidar, assim como da nossa cidade e das nossas próprias casas, refletindo sobre os efeitos dos nossos atos e assumindo a responsabilidade por eles.
Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br