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Terça-feira, Março 06, 2007 Comments:

Fragmentos de uma tarde de verão.

Gostaria de ser uma daquelas pessoas inconseqüentes, que agem por instinto. Mas não consigo. A racionalidade parece inerente ao meu modo de estar neste mundo. Sempre penso milhões de vezes a respeito de tudo: presente, passado, futuro. E, obviamente, possuo alguns pensamentos recorrentes, como o que deu origem às linhas que agora escrevo.
Muitas vezes me pego pensando se a vida é realmente feita por cada um de nós ou se estamos à deriva em um universo que conspira em alguns momentos a nosso favor; em outros, contra. E, é claro, conspira mais a favor de algumas pessoas do que de outras. Nem todos têm a mesma sorte na vida. E a própria palavra sorte também possui o sentido de destino. "Qual foi a sua sorte naquele episódio?" quer dizer: "o que aconteceu, afinal?".
Quem viu o filme "Forrest Gump", do diretor Robert Zemeckis, sabe do que estou falando. Neste, a meu ver, genial longa-metragem, uma das cenas mais bonitas é justamente a que Forrest Gump chora diante do túmulo de sua amada. Esta cena acontece bem no final do filme, e o personagem (interpretado magnificamente por Tom Hanks) se pergunta se quem estava certa era sua mãe, que dizia que a vida é como uma caixa de chocolates sortidos, pois você nunca sabe exatamente o que vai encontrar; ou o seu amigo tenente, interpretado por Gary Sinise, para quem a vida de cada indivíduo já estava traçada desde o início. Acaso ou destino? Forrest, ao indagar-se a respeito, conclui que, para ele, trata-se de um pouco dos dois.
Bem, não quero colocar esta questão como uma pergunta absoluta, mas tenho me perguntado, admito, nos últimos tempos, o quanto de nossas vidas somos nós mesmos que traçamos. Não sei se você já se deu conta de que muitos dos planos que fez tornaram-se coisas completamente diferentes do que você mesmo imaginara anteriormente. Mesmo quando algo sai muito melhor do que esperávamos, ainda assim, trata-se do não-planejado, ou seja, de algo que você não previra com clareza. Até que nesses casos, quando as coisas dão certo, esquecemos do plano original. Mas quando acontece o contrário fica aquela impressão no ar de que poderíamos ter feito algo diferente.
Algumas pessoas até procuram esquecer os planos anteriores, para não sofrer muito. E foi assim que eu ouvi a história daquele rapaz, já com cara de senhor (apesar de ser mais novo do que eu), naquela tarde de verão. Estávamos descendo a serra, em direção ao Rio de Janeiro. Eu, obviamente, era o "amigo-caroneiro", sentado no banco de trás. Ambos estávamos com nossas namoradas e a conversa, repentinamente, tomou a direção da música. Acho que eu estava falando do meu interminável novo CD, ou do anterior, não me lembro bem, e perguntei algo a respeito da música dele. Bem, só sei que o rapaz é talentoso, compõe, canta e toca (de forma competente) belas canções... E vive de advocacia. Trata-se de um trabalho sério, rentável. Afinal, ele vai casar. Não digo que ele esteja errado, não. Acho que a vida foi quem errou, no caso dele e de muitos outros colegas e amigos meus.
Talvez pelo fato de eu ter sempre transitado por esse meio artístico (principalmente da música e do teatro, mas também da dança, da Tv, etc), conheço muitas pessoas que venceram; muitas que estão lutando ainda por um lugar ao sol; muitas que já desistiram. Mas é interessante notar que um dom nunca desiste completamente de um artista. Por mais que ele tente se enfiar em um trabalho "estável", em uma vida "normal", parece que aquela voz interna continua a buzinar incessantemente ao longo dos anos.
De qualquer modo, a minha pergunta não foi respondida. Nem será...


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br

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