A Medida do Mundo.
Lembro-me da primeira vez que saiu um artigo meu no "JornalECO" (jornal universitário produzido pelos alunos da minha antiga turma de faculdade). Era o ano de 1995 e eu fui chamado por alguns colegas da classe (tratava-se de uma equipe composta por umas dez pessoas, no máximo) para escrever sobre... Música, é claro. Escrevia a coluna "Semínimas", na qual abordava fatos referentes ao mundo da música.
Utilizando-me de fortes opiniões pessoais (afinal, era uma coluna assinada...) e de um texto leve (apesar dos muitos parênteses com digressões intermináveis...), minha coluna foi uma das coisas mais comentadas daquela primeira edição do jornal independente produzido pelos (à época) calouros do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ). Algumas pessoas adoravam o que eu escrevia; outras me achavam um cara metido e superficial. De qualquer forma, a coluna não passou em branco e me rendeu ótimas discussões nos corredores da universidade. Na segunda edição, tive o prazer de não só escrever a coluna "Semínimas", mas também realizar pessoalmente uma entrevista com o excelente músico (e atual ministro) Gilberto Gil, antes de um show que o mesmo iria fazer na Concha Acústica da UERJ. Mais uma vez, muitos elogios aos textos; assim como críticas...
Depois disso, algumas divergências internas entre a equipe, aliadas à minha displicência com relação a qualquer assunto que não fosse exclusivamente o de redigir a minha coluna, fizeram com que eu me desligasse do jornal (que lançou somente mais uma edição com péssima repercussão entre os estudantes dos outros períodos e nunca mais foi editado novamente). Meu próximo artigo seria publicado no jornal oficial da ECO, editado sob a supervisão de um professor bastante rígido. Apurei e redigi uma reportagem sobre problemas internos da própria universidade e o professor me criticou bastante, dizendo que eu não podia fazer determinadas afirmações sobre a diretoria da faculdade, etc. Mesmo assim, o artigo foi publicado e repercutiu entre alunos de diferentes períodos.
Após muitas outras experiências jornalísticas, que vão dos escritos econômicos publicados no breve período em que fiz parte do Jornal do Commercio até os textos sobre turismo que recentemente redigi para uma empresa, fiquei muito feliz ao ser convidado pela aluna Paula Estrella para fazer este artigo. Ser publicado e lido por meus alunos durante a Semana da Comunicação da universidade em que leciono foi algo que me deixou entusiasmado. Afinal, alguns de vocês conviveram comigo por seis meses (outros já estão quase completando um ano, mesmo que de forma intermitente). E por que não escrever algo exclusivamente para vocês, falar de coisas que acredito e que procuro dizer em nossas aulas? A distância entre professor e aluno é algo que nunca cultivei. Não me entendam mal, mas prefiro a proximidade. Já até tive alguns problemas com isso, mas não abro mão de determinados princípios.
Há muita coisa que não sei (que bom, não é?) e não tenho problemas em admitir isto a meus alunos. Mas sei que o papel do professor universitário é importantíssimo, na medida em que ele lida com indivíduos cuja formação pessoal é uma realidade (vocês já são adultos...), mas cuja formação profissional ainda está no início. Apenas lecionar um conteúdo específico é pouco, posto que todos os conteúdos programáticos das disciplinas teóricas estão impressos em livros que podem ser adquiridos em diversas livrarias ou até mesmo sem que seja preciso sair de casa, através de sites. Assim, a forma como este conteúdo será abordado em sala de aula e o modo como o professor fará com que o mesmo se torne interessante para os alunos é o que, no meu modo de entender, "separa o joio do trigo".
Continuo tão polêmico como há dez anos, embora a vivência adquirida neste período tenha me feito administrar melhor (assim espero...) as minhas idiossincrasias. Na vida, e não apenas na sala de aula, espero não cometer novamente os erros do passado. Deste modo, haverá espaço para os erros (e também acertos) do futuro...
Para finalizar este texto que nem bem comecei (mas já está ficando longo...), deixo para vocês a letra de uma das minhas canções, composta em 2002 e intitulada "A Medida do Mundo". Esta música foi feita em um momento de dificuldades pessoais e financeiras e expressa um pouco daquilo que penso a respeito da vida e que procuro passar aos meus alunos:
"A vaidade destrói castelos
A verdade constrói a luta
A vontade se faz arguta
A virtude não quer só zelos
A remessa não está para peixe
A promessa se faz no feixe
Da transversa que corta o talo
Vamos nessa, não há atalho
Pois quem versa, o faz por dentro
Na conversa está o alento
Interessa a quem tem intento
Já que a pressa não pára o vento
Sem estrada não há espinho
Sem charada não há caminho
Sem espada, a palavra é ninho
Sem ter nada, se toma um vinho
Barato, vagabundo
E a cabeça dói de fato
Certamente,
Alguém já lhe falou
Mas no dia você
Ainda não poderia entender
Que a verdade
Não é só um conceito rondando ao redor
Afinal, você quer o melhor
(Quem não quer, não é?)
A história o faz voar
A memória lhe traz um lar
Sua glória não quer ficar
Acessória como um colar
A razão vem, lhe passa um pito
A emoção será sempre apito
Avisando o momento certo
Permeando o sermão do veto
Quem disfarça não mostra o rosto
Quem diz tudo não sente o gosto
Quem desfere a esmo é tolo
Quem despede-se quer consolo
E se a vida não estiver doce
A saída não é a foice
Indevida é esta fossa
A medida do mundo é nossa
Como um traço tão profundo
Que fazemos no espaço
Certamente
A esperança virá para nos embalar
Nos mostrar que há beleza no ar
E a saudade
Se traduz num suspiro que deve passar
Pois há muito ainda para chegar..."
Esta canção já está gravada e faz parte do meu próximo CD, que pretendo lançar este ano.
Até a semana que vem...
Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br