Toda semana um artigo novo sobre música.

Domingo, Abril 22, 2007 Comments:

Sopro sem direção.

"A vida é um sopro de desejo sem direção única." Esta frase (que até onde eu me lembre não me foi dita por ninguém) não cessa de martelar no interior da minha mente. Queria eu, realmente, ser um homem sábio, para compreender por completo minhas próprias idiossincrasias... Mas não sou.
A maioria das pessoas também não é. Viemos ao mundo para errar, em todos os sentidos. Somos errantes, como cavaleiros sem destino, ainda que sejamos também aqueles que simplesmente cometem erros. Alguns desses erros são básicos, repetidos até...
Eu, por exemplo, procuro não repetir os mesmos erros. Sou tão criativo que consigo sempre inventar erros novos. Erros mais charmosos, mais sofisticados e, até mesmo, mais tolos... Erros inéditos!!! Prefiro as coisas que se apresentam a mim pela primeira vez, pelo menos no que diz respeito a este assunto. Porque, no caso dos acertos (que até eu sou capaz de cometer de quando em vez), sou o mestre da repetição. Posso até citar um exemplo concreto. Quase toda noite eu bebo, antes de dormir, um copo de leite com duas colheres de Ovomaltine. Admito que a quantidade de Ovomaltine possa até variar. Três colheres num dia que merece um final mais doce; uma única colher num dia cujo gosto do leite se faça mais necessário. Leite integral, diga-se de passagem... Nada contra o leite desnatado, ou semidesnatado. Até bebo, de vez em nunca... Mas aquele leite integral daquela marca (cujo nome não pronunciarei por não estar recebendo um centavo sequer) é fantástico! Contei!!!
Sou um homem realmente simples. Apesar de a vida adulta estar querendo me transformar em alguém que se preocupa com vinhos e roupas, carros e investimentos, coisas materiais em geral; tenho cada vez mais certeza que o que importa de verdade são as pessoas. Sinto saudades de muitas, pois meu coração tem espaço de sobra. Ainda que esteja se tornando frio... Mas assisti a um filme na semana passada e me dei de presente algumas lágrimas. Sabe, não sinto saudades somente das pessoas. Sinto, muitas vezes, saudades de mim. Principalmente nos últimos tempos. Tenho me olhado no espelho e já não me reconheço por completo. Diversas circunstâncias me têm levado a viver uma vida que não me parece ser a que eu tinha há alguns anos. E realmente não é. O fato é que eu sinto muitas saudades do tempo em que eu chorava com mais freqüência: por pena, por remorso, pela simples emoção de chorar. Chorava de alegria e de tristeza. Enfim, chorava...
Hoje, infelizmente, meu peito anda com a mania de sufocar, estrangular, estraçalhar e até mesmo esconder todas as minhas lágrimas. A ponto de eu me perguntar se já teria gasto toda a minha cota de choro por essa vida. Por favor, não me entendam mal... Dizem que homens não choram. Talvez, só aos meninos seja permitido chorar. E talvez seja disso que eu sinta mais falta: do menino que havia em mim até muito pouco tempo atrás. Como qualquer menino, era mais sincero do que deveria; mais emotivo do que deveria; mais inconstante do que deveria; mais criativo do que deveria; mais energético do que deveria; mais feliz do que deveria. Aliás, como é bom ser feliz, não é mesmo? Houve uma época em que eu acreditava na felicidade como um ideal alcançável. Depois, passei a acreditar que a vida era um conjunto de momentos, e que a felicidade eram os momentos felizes, ainda que descontínuos. Hoje, não sei bem no que acredito. Mas sei que a felicidade tem a ver com desejo... Aquele mesmo, que sopra sem direção única...


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br

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