Toda semana um artigo novo sobre música.

Sexta-feira, Setembro 07, 2007 Comments:

Dançando ao som do tempo...

O relógio aproximava-se da hora certa, aquela na qual o rapaz havia nascido. Talvez pela última vez utilizasse este termo em seus textos. Afinal, as denominações devem mudar conforme o tempo. O andar da carruagem já anuncia uma nova fase. Tudo novo, de novo (como diria o poeta-cantor)... E ele, que também já se vira poeta, cantor, ator, amante, namorado, marido, etc, sentia-se exatamente da mesma forma de sempre: apaixonado pela vida e por sua diversidade. Queria celebrar cada instante, com amigos passados e futuros, pois sabia que, mais cedo ou mais tarde, novos amigos estariam em seu círculo. Se havia algo que cultivara alegremente neste tempo de vida, eram as pessoas. E se havia algo do qual se arrependia, era justamente não ter todas ainda em seu aconchegante círculo fraterno. Onde estariam aquelas pessoas importantes de outrora, que participaram ativamente de seus momentos preciosos no passado? Enfim, o círculo gira, sem início, fim ou qualquer garantia de prêmio durante o caminho. Mas prêmios estavam espalhados por todo o caminho. Cada beijo ou abraço, cada olhar e poesia, cada canção composta e peça encenada, cada estudo dedicado e competição vencida, cada medalha de ouro, prata ou bronze na sua gaveta (dentro da caixinha de madeira dada pelo seu saudoso avô paterno), cada memória revisitada, cada pessoa que se foi, cada lágrima que escorreu, cada perda assimilada, cada perda não assimilada, cada reflexão inconclusa, cada autor descoberto, cada autor relido, cada melodia impactante, cada solo improvisado, cada aplauso recebido, cada sorriso dado, cada dificuldade enfrentada, cada letra analisada, cada dúvida surgida, cada resposta não dada, cada gol perdido, cada bola na trave, cada palco conquistado, cada leito conhecido, cada cada em cada qual...
Ele pensou seriamente na aula que acabara de ministrar, nas coisas que disse perto das onze da noite. Não liberou a turma de pouco mais de cinco alunos e orgulha-se, enquanto escreve, de poder escrever isso e saber que está dizendo a verdade. Explicou aos alunos que, se eles estavam ali, assim como ele, deveriam aproveitar aquela oportunidade e ir adiante no conteúdo da disciplina. E que conteúdo!!! Leitura e discussão sobre consumo, comunidade, vínculo, etnia... Tudo isso faltando apenas três horas para os seus trinta anos. Ao final, a aluna que pediu para que ele liberasse a turma respondeu à sua pergunta sobre a validade daquela aula. A resposta foi afirmativa. Sim, valeu o "ser-em-comum". Valeu estar ali.
Ele ficou pensando sobre o que havia aprendido nestas três décadas. Quase nada, além de saber que, apesar de menos ingênuo, sua pureza com relação às aspirações que o levaram até ali não havia mudado. Ainda pensava em como faria para mudar o mundo. De certa maneira, fazia isso todos os dias, transformando suas idéias em prática, na medida do seu possível. Ainda não havia tornado-se confortavelmente anestesiado, como na letra de uma de suas músicas preferidas. Ainda pensava que o esforço por fazer "da melhor maneira possível" era o que movia seus atos.
Mas sabia também que uma parte importante de si estava um pouco obliterada, escondida, esperando o momento de voltar à cena. Sabia, contudo, que isso poderia até tardar, mas não deixaria de acontecer. Afinal, a gente é o que é... De qualquer modo, por mais estranhos e tortos que os caminhos da vida possam parecer, eles são bem-vindos... Até porque a vida é o único caminho...
Parabéns para você...


Pablo Laignier.

This page is powered by Blogger, the easy way to update your web site.

Archives